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Política TRANSPORTE PÚBLICO

Plano De (Des) Integração Nacional

Com um plano viário que por muitas décadas fora falho em um país de dimensões continentais, o agravamento do COVID-19 expôs todas as mazelas da logística brasileira

20/03/2021 12h30 Atualizada há 7 meses
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Por: Alex Neres Fonte: Alex Neres
“Metrô lotado todos os dias é o retrato de um transporte que foi pensado de forma ineficiente. Fonte: Metrô SP”
“Metrô lotado todos os dias é o retrato de um transporte que foi pensado de forma ineficiente. Fonte: Metrô SP”

 

Perto de muitos países, o Brasil é um verdadeiro continente, dada à grandeza de seu território. Isso se traduz também em uma grande história de cinco séculos que culminaram em 27 unidades de federação e mais de 5 mil cidades. Muitas dessas cidades são de fácil acesso, localizadas em relevo constante, regular e com infraestrutura bilionária que permite um tráfego rápido e sem complicações por intempéries ou acidentes geográficos. Porém muitas localidades estão isoladas do restante do país, exigindo um transporte bem mais penoso e demorado. Na região Norte do Brasil é onde isso fica mais evidente, onde cidades só são acessíveis através de via hidroviária.

 

Isso tudo gera um custo muito alto que, infelizmente, a população é a única que paga com produtos caros, fretes exorbitantes e precarização dos serviços mais básicos. Na tentativa de mudar este quadro, em 1970, o Governo Federal, sob o comando do Gen. Médici sancionou o Decreto-Lei Nº 1.106, conhecido como Plano de Integração Nacional. Plano este que queria criar talvez um cenário de megalópole no meio do nada, onde com mão-de-obra de trabalhadores vindos do Sul e Nordeste, os caminhos seriam literalmente abertos na Amazônia, com a construção de estradas que cortariam toda a região, integrando todas as localidades e abrindo as portas da América de uma ponta a outra. Cidades distantes de tudo ficariam a todo vapor com estradas novinhas ligando-as ao país inteiro.

 

O projeto faraônico teria sido maravilhoso se não tivesse feito de forma igualmente adjetivada: faraônica. Tínhamos um país com a floresta mais densa e extensa do planeta a se abrir caminhos, tribos indígenas isoladas, rios totalmente sinuosos. Mesmo com a construção da Transamazônica de forma capenga e pelas metades, logo o grande plano foi deixado de lado. Muita gente de regiões remotas que abandonaram seus logradouros por acreditar na promessa de um novo progresso (e não me refiro ao município paraense), ficaram isolados de tudo e tiveram que começar a vida em um lugar de colheita questionável, no meio da selva amazônica.

 

O resultado foi que o Norte que antes era isolado passou a ser... isolado. A logística continuou ineficaz e com o tempo, o abandono de tudo potencializou as dificuldades de ir e vir daquela população. Dificuldade que prevalece até hoje, onde muitas vezes carros e caminhões ficam presos dias ou até mesmo semanas em uma estrada intransitável, sem serviços, a mercê de condições climáticas. Isso quando as pessoas não precisam sair de localidades distantes e enfrentar uma semana rio acima até chegar em uma cidade que ofereça o mínimo necessário para as necessidades de cada cidadão.

 

Isso não se restringe somente à região amazônica. Segundo levantamento da CNT, dos 1.720.756 km de rodovia em nosso país, apenas 211.468 km são asfaltados, pouco mais de 12,3%, o que coloca o Brasil como um dos piores países no aspecto. Isso dificulta boa parte do escoamento da nossa produção, encarecendo os produtos como uma reação em cadeia. E no período atual que vivemos, nunca a logística mal planejada ficou tão evidente. O transporte de insumos em regiões remotas fica prejudicado e acaba tendo um custo altíssimo. Nas zonas urbanas, as cenas de ônibus lotados em um cenário que precisávamos ao máximo evitar aglomerações para evitar o aumento do contágio pelo COVID-19, são um retrato de um erro gravíssimo de planejamento viário.

 

E por que um erro? Simples. Somos uma nação que falhamos muito em pensar transporte. Em países de grandes dimensões territoriais como Rússia, China, Estados Unidos, Canadá e Índia, boa parte do transporte é feito sobre trilhos. Literalmente a ferrovia comanda. Localidades mais remotas possíveis onde a construção e a manutenção de uma rodovia seriam impossíveis, os trilhos se mantém por séculos. Pode parecer para muitos algo arcaico, mas o fato do transporte ferroviário ter o seu espaço deve-se ao fato de ser mais econômico, versátil na capacidade de carga, no tipo de utilização e na pluralidade de matrizes energéticas, não se restringindo unicamente à gasolina, etanol ou diesel. Durante o Séc. XIX, o Brasil avançou bastante na expansão ferroviária, mas com o surgimento dos veículos automotores, isso foi perdendo força e as grandes ferrovias para locais remotos foram sendo relegadas apenas para poucas demandas cargueiras.

 

Nas cidades, as soluções de trem e metrô são bastante difundidas em grandes capitais, mas ainda estão longe de serem suficientes para atender uma demanda populacional cada vez maior. O VLT prometido em tantos lugares parece ter dado certo apenas no Rio de Janeiro e por sinal, é mais algo pra ser bonitinho no legado olímpico do que funcional. Cidades como o próprio Rio e Goiânia e Brasília adotaram os ônibus em corredores chamados BRTs. Porém atendem apenas uma pequena área urbana e o fato de serem veículos de total integração, os tornam transportes de alta demanda, quase sempre insuficientes, além de serem até hoje, bastante poluentes.

 

Com tanta tecnologia, acho impensável que ainda se pense em transporte levando em conta apenas o ir e vir sem as mínimas condições de conforto e segurança. Mesmo se desconsiderarmos o cenário pandêmico, não é nada seguro que alguém se desloque em pé, se segurando na porta, sentado no degrau da porta. É impensável que uma grande metrópole seja restrita a uma única forma de transporte. Um grande exemplo disso é visto em Brasília, onde a região oeste é servida por ônibus, metrô e BRT enquanto que a região leste se restringe ao ônibus e de forma precária, com terminais caindo aos pedaços. 

 

Todos tem o seu espaço: o ônibus é ideal para deslocamentos urbanos curtos entre cidades; o VLT, deslocamentos dentro de bairros próximos e grandes centros; o metrô para trechos mais longos entre diversas cidades. A partir do momento que temos avenidas e rodovias com longos trechos retilíneos, o BRT se torna ideal, o que inclusive abre a possibilidade do mesmo ter propulsão elétrica, mais econômica e com zero emissões. E por fim, para grandes distancias, entre estados e cidades mais remotas, o transporte por trem é o grande acerto. 

 

Não é difícil imaginar este cenário. Difícil é imaginar que milhares de pessoas estão se contaminando com o vírus do COVID-19. Difícil é pensar que milhares de pessoas passam dias em um barco precário para chegar à uma capital e conseguir um atendimento médico decente. Difícil é não se revoltar ao ver alguém precisando de oxigênio e o caminhão que o leva está atolado na Transamazônica. São décadas imaginando obras faraônicas para melhorar a logística do Brasil e nada muda. Vislumbram sempre grandes projetos, mas na prática a estrada para o ir e vir do brasileiro ainda está muito aquém daquilo que realmente merecemos e precisamos percorrer todos os dias.

 

Alex Neres também é comentarista esportivo na Rádio 4 Tempos. Todas as Terças-Feiras, as 19h o programa 4 Tempos em 4 Rodas com tudo que acontece no mundo do automobilismo, além de análises e comentários sobre os lançamentos, tendências e  novidades no universo automotivo. 

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Alex Neres
Colunista de Automobilismo e Mobilidade Urbana
Ipê Brasília

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Email: [email protected]com

 

   
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